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Igreja do Hospital de São Marcos e da Misericórdia

 

Actividades Religiosas resumo informativo

 

HORÁRIO DAS MISSAS:

Igreja da Misericórdia

Domingo 9,30 h

Semana  9,30 h

 

Igreja do Hospital

Domingo 10,25 h

Semana  15,55 h

 

IGREJA DA MISERICÓRDIA

 

1. Edifício com a fachada em estilo renascentista, construído no ano de 1562, de acordo com a inscrição que se pode ler na sua frontaria.

2. A fundação da igreja
“Quem se dirige da Praça do Município, outrora praça de touros, para a rua D. Diogo de Sousa, depara com a fachada principal de uma igreja de proporções modestas. É a igreja da Misericórdia, que dá o nome à rua e foi mandada construir pela Irmandade da Misericórdia.
Sendo esta Irmandade uma das mais antigas e prestigiadas da cidade, cedo pensou erigir a sua igreja e sede. No tempo de D. Diogo de Sousa (1505 1532) foi autorizada a ter sede e a celebrar os actos de culto, na Sé Catedral, na capela de Nossa Senhora da Piedade, nos claustros, também chamada capela de Jesus 1. Esta capela, ainda não há muito, era conhecida por Misericórdia Velha.
Foi o arcebispo D. Frei Baltasar Limpo, em 1558, quem deu a primeira licença canónica para levantar esta igreja, em terrenos adquiridos por duzentos e dez mil réis. Este espaço corresponde ao ocupado por umas casas pertencentes a D. Branca de Azevedo, em frente à capela de Nossa Senhora da Glória, túmulo do arcebispo D. Gonçalo Pereira.
As formalidades no foro civil foram concluídas a 3 de Março de 1558, com a aprovação do juiz e dos vereadores, as pessoas que costumam «andar na governância da Cidade» 2. É interessante notar nos termos usados na aprovação civil: «considerando que tal obra era de louvor a Deus e em proveito da res publica que ao presente temos encargo».
O arcebispo D. Frei Bartolomeu dos Mártires, beatificado em 04 de Novembro de 2001, sucessor de D. Frei Baltasar Limpo, concedeu a sua licença para a mesma edificação em 1561, confirmando a do seu antecessor. Fê lo com palavras simples, mas encorajadoras, chamando lhe «obra tão pia e santa» e concedeu lhe todas as graças e indulgências que, por direito, podia dar.
As obras começaram em 1560. Para enfrentar as despesas de tão grande empreendimento era necessário conseguir muitas ajudas materiais. As dificuldades financeiras eram enormes. Basta pensar que o Hospital de São Marcos estava a cargo da Irmandade, desde o ano anterior, onde eram absorvidos muitos dos seus recursos em obras urgentes e em assistência a enfermos. Além disso, havia outros encargos em obras de igrejas dependentes da Santa Casa, tais como São Martinho de Medelo, São Martinho de Galegos e ainda o Recolhimento de Santo António das Beatas, no Campo da Vinha 3.
Foi necessário vender propriedades em Godinhaços, Vila Verde, e em Bastuço, Barcelos, e pedir ao bispo do Porto o pagamento de uma dívida e pensão que o falecido D. Frei Baltasar Limpo tinha deixado, em testamento, a esta Irmandade.
Além das esmolas avulsas, das quotas dos Irmãos e dos donativos mais valiosos de benfeitores insignes, muito contribuiu ainda a devoção de alguns irmãos e outros fiéis que pretendiam ser sepultados dentro dos seus muros.
Foi tanta a procura que, em 1591, «foi preciso acertar e ordenar a distribuição das sepulturas». Esta medida, além de ajudar «no ordenamento e decoro» 4, fez aumentar o número de sepulturas disponíveis, conseguindo assim mais ajudas materiais para as obras em curso. Além de aumentar os ingressos financeiros, permitiu dar seguimento à preocupação dos responsáveis pela Santa Casa da Misericórdia, quanto ao cuidado estético e arquitectónico no interior da igreja. Um documento da época refere: «Para todos gozarem da sua devoção todas (as sepulturas) deveriam ser iguais, todas abobadadas e muito bem ornamentadas de maneira que a obra corresponda com o verdadeiro fabricador e fazedor de todas as coisas que é Cristo nosso Redentor»

3. Visita guiada
3.1 Fachada
“A fachada principal, de estilo renascença italiana que a marca, tem, no centro, por cima do janelão, uma cartela de granito, que assinala a data da sua construção: 1562. Distinguem se quatro grandes colunas jónicas, duas de cada lado do arco da porta de entrada. Há memória destas colunas terem sido pintadas a cal e óleo e de o resto da fachada ter sido pintada e dourada. Esta pintura talvez tivesse sido semelhante àquela que se encontrou no interior das colunas de pedra, da capela lateral, ou dos arcos em granito do retábulo primitivo, hoje coberto pela talha. Sobre o arco, foi colocado, em 1770, o escudo do Rei de Portugal, protector da Irmandade.
Entre as duas colunas, sobre uma base talhada no granito e coroada por um dossel artístico, encontram se as imagens de Santa Isabel, rainha de Portugal e de São Luís, rei de França, aí colocadas em 1723. O segundo patamar é composto por oito colunelos jónicos e alguma decoração. Ostenta três arcos e duas platibandas: o arco do meio, com vitral e os laterais cegos. De cada lado há uma janela rectangular. Os arcos cegos e vazios, bem como os espaços entre as duas colunas, devem ter sido projectados como nichos para colocação de imagens ou figuras alegóricas. Os capitéis das colunas do primeiro patamar sustentam, no segundo, uma concha de grandes proporções e de belo recorte artístico. O tímpano triangular ostenta quatro conchas, talhadas em granito, de grandes proporções, em comparação com o conjunto.
A cruz de remate «foi colocada, em 1891, com uma cornija para a frente da empena da igreja e cimalha ou ornato para o centro da mesma empena».
Subindo as escadas, bastante íngremes a escadaria do tempo da fundação começava encostada à parede do edifício da Irmandade e terminava num pátio que ampliava o espaço da entrada. Este foi demolido para possibilitar a passagem do carro eléctrico da linha Estação - Bom Jesus,
que foram construídas em 1855, para substituir a escadaria primitiva, entra se no átrio acolhedor e belamente ornado. É de referir que por baixo destas escadas, existia um nicho e, no piso semi enterrado, uma fonte chamada de São Geraldo, da qual ainda há vestígios, através de umas escadas de acesso ao local, fechado por grade de ferro. Desta fonte a água era encaminhada, por uma mina avantajada em altura, na direcção ao Campo da Vinha. Talvez seja por isso que continua a correr a tradição de que nasce um rio na Sé e que atravessa a Misericórdia.  Durante as escavações dos edifícios do Tesouro-Museu da Sé, foi necessário construir um poço para receber e escoar as águas que corriam continuamente do subsolo da Capela de Nossa Senhora da Piedade não é um rio mas, ainda há 20 anos era uma nascente considerável de água”.
3.2 Nave da Igreja
“Ao entrar na igreja por qualquer das portas do primoroso guarda vento, de madeira, pintada a fingido, depara se com as pias de água benta de granito, em forma de concha, sobre pé trabalhado. Estão coroadas por um arco gótico, possivelmente posposto, quando foi construído o coro alto, para lhe dar apoio. Consta que estas pias de água benta já estiveram colocadas, por decisão tomada em 1891, no ângulo da parede.
O pavimento primitivo era de taburnos de madeira, colocados sobre guias de granito, que delimitavam as sepulturas. Em 1891, quando se deixaram de fazer enterramentos na igreja, recebeu novo soalho. Em 1894 foi rebaixado o pavimento da capela mor para diminuir os degraus no que fosse possível; no corpo da igreja o soalho foi rebaixado para abater o degrau em que assentava o guarda vento”.

3.3 Paredes
“As paredes laterais devem ter ficado, a princípio, de cantaria à vista ou caiadas. Em 1663 1664 foram recobertas de azulejo, desenhado por Francisco Fernandes Buléu de Braga, e executados pelo Padre Frei Bento da Cunha, beneditino de Lisboa. Em 1795 foi retirado o azulejo, ficando apenas um lambrim com este material. O restante foi aplicado na casa da Irmandade, no claustro e na subida das escadas. A pintura das paredes e do tecto deve corresponder à que foi executada nas obras de 1892 ou 1894, altura em que se fez tratamento, com asfalto, às paredes da igreja e de todo o edifício contíguo. Deve ser desse tempo a colocação do lambrim de escaiola. Na parede do lado direito encontra se a porta da sacristia, que foi alteada em 1891, quando o pavimento da igreja foi rebaixado.
A seguir a esta porta foi aberto um arco, em 1689, para dar acesso à antiga sacristia, depois transformada em capela do Santíssimo”.

3.4 Vitrais
“As janelas laterais foram aumentadas em volume e, no primeiro quartel do século XX, foram enriquecidas com vitrais coloridos de muito boa qualidade. Do lado esquerdo, junto do altar mor, está o vitral do Nascimento de Jesus e, junto do coro, o da Visitação de Nossa Senhora a Santa Isabel. Do lado direito, por cima do púlpito, está o do brasão da Santa Casa da Misericórdia de Braga, e, junto do coro, o da Cidade de Braga. Os vitrais do coro, além de motivos geométricos, mostram figuras alegóricas da Eucaristia”.

3.5 Tecto
“A estrutura do tecto é constituída por caixotões de madeira, rectangulares e simétricos. Cada um é formado por um painel com tiras de madeira (fasquio), recoberto de gesso, com acabamento colorido e dourado. O do centro ostenta o brasão da Santa Casa da Misericórdia de Braga. No restauro, foram encontradas tábuas pintadas no forro do tecto dos painéis de gesso, vestígios de caixotões de madeira pintada, semelhantes aos da igreja do Salvador”.
Ver citação do Doutor Vítor Serrão, em O Mosteiro do Salvador de Eduardo Pires de Oliveira. Braga 1994.

3.6 Capela do Santíssimo
“Presidia a esta capela um retábulo, com uma tela de Nossa Senhora da Boa Morte, pintada em 1703, pelo célebre pintor Bento Coelho (1620 1708). Este motivo mariano, entrou na iconografia cristã, com o nome de «Trânsito da Virgem». Este quadro foi depositado pela Mesa da Santa Casa da Misericórdia de Braga, no Museu Diocesano Pio XII, logo a seguir à sua fundação (1957). Fez parte duma exposição de Bento Coelho, em Lisboa, no ano de 1998, depois de restaurado, a expensas do Comissariado da Exposição. Terá sido nestas obras que a tela foi retirada e guardada nos anexos da igreja.
Nas obras de restauro, em 1867, foi construído um retábulo de talha dourada, dedicado ao Santíssimo Sacramento, com motivos alegóricos à Santíssima Eucaristia. As suas paredes foram escaioladas, na mesma altura”.

3.7 Púlpito
“O púlpito actual não deve ser o primitivo pois o suporte deste, embutido na parede, não corresponde à peça de granito, nem no estilo, nem na qualidade, à da base do púlpito que se encontra apenas pousada. Existe, também, a informação de que, em 1691, foi pintado o púlpito e o pé dele. Em 1891, foi colocado, sobre a sua porta um baixa voz, uma espécie de dossel de madeira, para ajudar as condições acústicas. Houve um estudo de um púlpito de mármore, com um orçamento de 1892, mas não se concretizou a sua construção”.

3.8 Quadros com Telas
“Sobre a porta da sacristia está o quadro da Anunciação. Foi recuperado após o estado de degradação em que se encontrava há vinte anos. Em frente, está o de Nossa Senhora da Visitação, também tratado e restaurado. Teria sido pintado, em 1722, por Domingos Silva. Ambos tinham sido restaurados, em 1892, por Lino da Costa Nilo, da Póvoa de Varzim”.

3.9 Retábulo
“Junto das grades que separam a capela mor, pode se apreciar o retábulo de Marciliano de Araújo, todo dourado. Começou a construir se, em 1735, e foi concluído cinco anos depois. Veio substituir o anterior, também de madeira, da autoria de Belchior Fernandes, colocado em 1690. Este cobriu o retábulo primitivo de granito, composto por três arcos, pintados e dourados. As figuras centrais, no coroamento do retábulo, correspondem à Visitação de Nossa Senhora à sua prima Santa Isabel, com São José e São Zacarias. No pano do majestoso retábulo podemos admirar figuras alegóricas das virtudes teologais: Fé, Esperança e Caridade, e das virtudes cardeais: Prudência, Justiça, Fortaleza e Temperança, além de figuras angélicas e outros adereços decorativos”.

3.10 Tribuna
“A tribuna de exposição solene do Santíssimo está habitualmente velada por uma tela da Padroeira, Nossa Senhora da Misericórdia, que preside a este retábulo. Houve proposta para fazer uma tela em 1687, mas não sabemos se foi executada. Provavelmente a tela actual foi pintada por José Lopes, em 1736, por cem mil réis. Há notícia de que, em 1775, foi acrescentada, na pintura, uma coroa de imperatriz, sobre a cabeça da imagem de Nossa Senhora, «à semelhança de todas as imagens veneradas pelas Irmandades da Misericórdia, em todo o reino».
Do lado direito, venera se a imagem de Nossa Senhora da Piedade 8 e do lado esquerdo, a imagem do Senhor Ecce Homo 9, que dá o nome à Procissão Penitencial de Quinta feira Santa, também chamada das Endoenças (= Indulgências) e popularmente conhecida por Senhor da Cana Verde.
No arco envidraçado, do lado esquerdo, venera se São Bento, patrono da Europa, cuja festa é celebrada, no dia 11 de Julho. Já esteve aqui exposta a imagem de roca de Nossa Senhora da Soledade No lado direito, foi colocada no dia da sua beatificação, a imagem de Frei Bartolomeu dos Mártires, dominicano e Arcebispo de Braga. A imagem de S. Pedro de Verona, martirizado em 1252, também da ordem Dominicana, tinha sido colocada aqui, a pedido dos oficiais do Santo Ofício, que o veneravam como seu Patrono. Sem culto há bastante tempo, a sua imagem está colocada na sacristia.
O retábulo termina com três altares. O do centro foi deslocado, conforme as orientações litúrgicas vigentes, para o supedâneo da capela mor. O seu frontal representa o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes, em meio relevo, policromado e dourado”.

3.11 Arquibanco
“Junto da parede lateral da esquerda, está o arquibanco dos Mesários, feito de pau-preto e talha dourada. Este veio substituir uns bancos de madeira com os assentos de couro”.

3.12 Grades
“As grades actuais, que dividem os espaços litúrgicos, não são as primitivas. Devem ter sido feitas quando foi construído o coro alto. Houve grades de ferro, com florões de metal e outras de pau-preto, com guarnições metálicas”.

3.13 Claustro
“Antes de acabar a visita, recomenda se que passe pelo claustro, antigo espaço ao ar livre e coberto em 1853. Pode se verificar que as colunas esbeltas de granito tinham sido cobertas a cimento, num trabalho de execução notável, mas de gosto duvidoso. As suas paredes foram revestidas de azulejo, em 1687. Ainda se pode reparar num painel de azulejos desse tempo. A clarabóia estucada, aberta em 1853, foi substituída por três entradas de luz, em pontos diferentes do recinto, facilitando a iluminação natural”.
Neste claustro, foi possível aproveitar um espaço morto que dava acesso ao púlpito, para criar um lugar digno, cómodo e discreto para a celebração do Sacramento da Penitência. O penitente entra por uma porta que se abriu na parede da capela do Santíssimo para um pequeno compartimento com entrada de luz natural e o sacerdote atende no espaço dividido do lado do claustro.
A segunda fase do restauro deste claustro, proporcionou a musealização do espaço.
As estátuas de barro vermelho, do séc. XVIII, depois de restauradas, estão expostas numa estrutura de aço escovado, sugerindo a posição primitiva sobre a porta lateral. A taça de granito, em forma de concha, foi deslocada para este local, mais adequado e servindo de fonte.
As imagens de Santa Isabel, Rainha de Portugal e de Santa Rosa de Viterbo, também restauradas e levadas à pintura primitiva de ouro burnido, estão expostas numa mísula metálica. Na parede encostada à capela de Nossa Senhora da Piedade, da Sé, foi posto a descoberto um pano de parede saliente, em forma de arco. O Cabido, nos fins do séc. XIX pediu licença à Irmandade da Misericórdia para o construir, a fim de ampliar o nicho do seu retábulo.
O arcaz do séc. XVIII, encostado a esta parede, é propriedade do Tesouro-Museu da Sé e está aqui colocado a título de depósito. Sobre ele estão dois Sacrários. O da esquerda esteve emprestado na Igreja de São Marcos do Hospital. Terá sido utilizado na capela do Santíssimo, desta Igreja da Misericórdia antes das obras de 1867. O outro, mais artístico, é utilizado, desde há muito no Tríduo Pascal. Os dois armários de castanho antigo, restaurados, guardam paramentos e alfaias de culto. Os apoios metálicos para suporte de velas foram adaptados para exposição de algumas bandeiras da Santa Casa da Misericórdia. O candelabro, em forma de triângulo com 15 velas, era usado no Ofício de Trevas (Matinas) em Sexta-feira Santa e Sábado Santo. No fim de da recitação de cada salmo, eram 14, apagava-se uma vela. A décima quinta ficava acesa e era a única que iluminava o templo durante a oração final.

4 Sacristia
O edifício da Casa da Mesa, onde nos encontramos, foi traçado, em 1624, pelo P.e Geraldo Álvares 10.
A Sacristia foi revestida de azulejo, em 1687. Os dois painéis de azulejo são disso testemunho.
O pavimento foi todo levantado e tratado. O arcaz assentava sobre uma base de tijolo burro, aplicado sobre madeira e estava encostado a uma parede de tabique. ----(NOTA DE RODAPÉ: ) Por se encontrar em muito mau estado foi substituída por nova estrutura metálica, revestida de placas de gesso cartonado. Esta parede deve ter sido construída em 1700 para corrigir o ângulo sotado e ali encostar o arcaz.
A parede mestra, visível na sala contígua e a orientação da viga, mostrada no tecto, provam esta a afirmação!-----
Ao deslocar o quadro do Crucifixo foram encontradas umas tábuas pintadas, a reforçar o seu caixilho. Foram substituídas e guardadas. Ao restaurar o tecto de gesso, dos princípios do século XX, descobriu-se que essas tábuas fizeram parte do forro pintado, antes da colocação do gesso. Por essa razão, e, para memória, ficou uma abertura do tecto do séc. XVIII, onde se pode ver uma das vigas, paralela à parede mestra com a pintura do tempo. As tábuas do forro foram pintadas agora, imitando as primitivas.
Embutido na parede da janela do lado direito existe um armário-cofre, cuja pintura anterior foi posta a descoberto. Junto, no ângulo oposto, existia um armário construído no local, que cobria um arco de granito. Foi desmontado para facilitar a abertura do armário-cofre e, ao mesmo tempo, através da clarabóia mostrar o arco e iluminar as escadas do edifício.
A fonte, que já existia, foi deslocada para o centro do arco, emoldurada com placas de mármore recente, a condizer com a cor e o estilo da fonte, agora coroada com o painel de azulejo e a inscrição habitual, em latim: “Da, Domine, virtutem manibus méis”, Dá, Senhor, virtude às minhas mãos.
Entrando na Sacristia, fica se fascinado pela beleza rara do contador de pau-preto, ornado com ferragens artísticas e do majestoso arcaz, com 12 gavetões para guardar os paramentos usados nas celebrações litúrgicas. Foi artesão destes móveis Agostinho Marques e seus auxiliares, em 1699 1700. Foi encimado, no centro, por uma espécie de oratório, com baldaquino. O Crucifixo, esculpido em madeira, do ano 1700 é enquadrado pela tela de fundo, representando a cidade de Jerusalém.
Da mesma data são os dois espelhos, de origem inglesa e comprados no Porto.
Aqui se veneram ainda os bustos/relicários de madeira policromada e dourada, representando diversos Mártires e Pontífices: S. Romano, S. Honéstimo, S. Benigno, S. Martinho de Tours ou de Dume, S. Florídio e S. Celso, todos obras-primas do séc. XVIII. As relíquias estão expostas em pequenos lóculos envidraçados. No seu restauro foi possível remover a última pintura policromada e mostrar o estofo colorido primitivo, a ouro burnido. Ao remover a pintura da cana das bases, apareceu, em cada uma, em baixo-relevo, um algarismo.
Esta descoberta veio dar uma notícia importante: a ordem como foram colocados na posição original, correspondente de um a seis. As fotos colhidas antes do restauro mostram que o critério de hierarquia estava respeitado, com os bustos dos bispos no centro, mas a posição dos outros não correspondia à ordem primitiva.
5 Sala das Sessões
“Subindo as escadas, encontra se a Sala das Sessões. Os pavimentos, de pinho de riga, estavam alcatifados e as paredes recobertas a papel muito deteriorado. Os tectos são emoldurados a gesso, agora restaurados.
Admirável é o oratório, construído em 1742, sobre um arco de pedra aberto na antiga parede em janela para o exterior”. ----(NOTA DE RODAPÉ: ) Esta janela foi fechada quando a casa do Cabido foi construída.-----
“Preside a figura de Jesus crucificado, adorado por um pajem nobre e um eclesiástico”.
“Os lustres de cristal que estavam na igreja, com a revisão do sistema de iluminação foram retirados. Pareceu que se enquadravam melhor nesta sala nobre. É aqui que se realizam as Assembleias Gerais da Irmandade, bem como o acolhimento dos Participantes nas Procissões do Senhor Ecce Homo e do Enterro do Senhor. As paredes estão decoradas com telas, do séc.XVIII, com pinturas referentes a Nossa Senhora da Misericórdia, São Bento, Santo António e Santa Rosa de Santa Maria. Na sala contígua estão os quadros de benfeitores insignes e dos Provedores. Em lugar de honra está a tela de D. Rodrigo de Moura Teles, Arcebispo de Braga, grande benfeitor e também provedor (1709 - 1712)”.
Voltada para a Sé existiu uma varanda abrigada, com 8 colunas e parapeito de granito. Mais tarde foi fechada com parede e com 7 aberturas em janela. Serviu de residência do capelão. A cozinha era separada do resto da sala por parede de tabique e porta ao meio. Esta divisão foi demolida nas últimas obras. Ao retirar um armário construído sobre a parede do lado direito, descobriu-se a pintura original, imitando uma sanca. O seu bom estado de conservação permitiu que o desenho fosse repetido em toda a volta da sala.
Esta sala está hoje dedicada ao Provedor, Comendador António Maria Santos da Cunha. O seu recheio foi legado pelos familiares.
No pátio das escadas deste piso, à direita, há acesso a uma zona de apoio sanitário e às escadas da torre. O único sino, colocado num arco granítico, foi protegido por uma estrutura de vidro laminado para defender das intempéries, das humidades e impedir a presença de pombas.

6 Porta lateral
“Agora, ao sair pela porta lateral, que já teve anteparo de madeira colocado em 1747, contempla se a harmonia arquitectónica do conjunto. As imagens que se encontram no exterior, sobre uma grande cornija de granito, encimada por colunas e pequenos arcos, são réplicas das primitivas, hoje protegidas e enquadradas no interior do claustro. Representam Nossa Senhora na visita a sua prima Santa Isabel. O quadro é ladeado com as imagens de São José, São Zacarias e dois Arautos, que ostentavam uma tuba na mão.
Este grupo escultórico foi defendido, desde 1776, por uma varanda envidraçada. No ano de 1911, talvez por ser inestética, foi retirada. As consequências dessa decisão foram muito prejudiciais. As réplicas, de material acrílico, custaram, em 1995, a quantia 7 855 000$00.
Junto desta porta existiu uma fonte, chamada de Nossa Senhora da Visitação. A roldana que ainda se vê na cornija, é memória da lâmpada de azeite que ardia continuamente, desde 1867. Na parede, à esquerda da entrada, em altura acessível, existe uma caixa com porta metálica, embutida no granito, onde se guardava a cadeia de ferro que elevava esta lâmpada.
O largo fronteiriço tem o nome de D. João Peculiar, arcebispo de Braga (1138 – 1175) que apoiou D. Afonso Henriques na fundação de Portugal. Distinguiu se na área diplomática, nas ligações com Santa Sé. Foi considerado um «caminheiro constante» entre o Condado Portucalense e Roma”.

4. Evolução de 451 anos

1. • “A igreja da Misericórdia e seus anexos: claustro, sacristias e Casa da Mesa, passaram por inevitáveis obras de conservação e beneficiação, ao longo deste percurso.
2. • As datas mais marcantes, depois da sua edificação, e por ordem cronológica, foram, a cobertura das paredes com azulejo, a colocação dos retábulos e seu douramento, pintura dos tectos e caixotões, adaptação da antiga sacristia para a capela de Nossa Senhora da Boa Morte e depois do Santíssimo Sacramento.
3. • Quando a igreja encerrava para obras, o culto continuava a celebrar se noutro lugar. Foi o que aconteceu, desde Novembro de 1893 a 5 de Dezembro de 1895, em que a missa dominical e dos dias festivos foi celebrada na capela de São Geraldo, da Sé. Também aconteceu de o culto passar para a igreja de São Marcos, como aliás nestas últimas obras: desde 27 de Junho de 1996 a 9 de Março de 2003. Pelo menos uma vez se deu o inverso, o culto da igreja de São Marcos foi celebrado na igreja da Misericórdia.
4. • Nota se, pelos termos da Mesa, que o interior da igreja era adornado por cortinas, cortinados, reposteiros e franjas douradas. As próprias imagens e crucifixos eram velados por panos roxos, durante a Quaresma. Para decoro e boa apresentação, estes panos eram renovados com frequência.
5. • Também há notícia de grades de ferro e sua substituição ou eliminação. Não ficamos com a certeza se algumas dessas grades correspondem às que foram colocadas, em algumas igrejas, por influência do Jansenismo. Constata se que se faziam muitos mais gastos com o hospital e menos investimentos nos locais de culto. É lógico e compreensível. Mas, as pedras vivas, que somos todos na Igreja, temos de continuar a olhar pelas memórias vivas dos que nos precederam. O património espiritual e material, artístico e histórico que deixaram os nossos antepassados não pode ser abandonado ou esquecido. Precisamos de mobilizar muitas vontades para dar continuidade à obra começada em 1560.
6. • Ao chegar ao fim desta exposição, vai encontrar uma listagem, não exaustiva, das intervenções realizadas. Poderemos concluir que valeu a pena encerrar para obras esta «jóia pequenina».
7. • As dificuldades para a realização e conclusão destas obras, foram muitas e de vária ordem. Alguém as comparou já com as obras de «Santa Engrácia» de Lisboa, mas não se exagere, ou melhor: «Não queiram meter a Sé pela Misericórdia dentro», como é habitual dizer se. O volume das obras foi tal e os pormenores de execução foram tantos e tão diversificados que é fácil de compreender a delicadeza e a morosidade da intervenção. Além destas razões de fundo, é bom pensar nas chuvas intensas, nas reacções dos gessos e de outros materiais à humidade envolvente e a aplicação de produtos tóxicos (anti xilófagos) que obrigou o encerramento preventivo da obra, durante algum tempo. Foi difícil cumprir prazos. Mesmo assim, houve recursos que foram reforçados para abreviar o tempo de mão de obra. Sublinho que os oito vitrais foram tratados por três vitralistas diferentes. Só um foi tratado no local. Todos os outros foram levantados e restaurados nas diversas oficinas. A obra de pintura artística e de restauro foi tão extensa que ocupou duas empresas.
8. • Dos seis anos de encerramento da igreja para obras, depois da imediata intervenção de emergência, quase dois foram gastos no estudo prévio, projecto, aprovações, decisões e contactos com as empresas”.

5. Obras de restauro e beneficiação

“No período compreendido entre 27 de Junho de 1996 e 9 de Março de 2003, foram executadas grandes obras de conservação, e trabalhos de restauro de todo o recheio, tetos e paredes.

Nota:
Chama-se a atenção para os efeitos da iluminação e música ambiente em todas as dependências dos edifícios do Sec. XVI ao Sec. XX, com descobertas de pormenores de arquitectura, engenharia e arte sacra.

6. Epílogo:
“A (primeira) visita guiada chegou ao fim. Muito ficou por dizer. Tem se consciência de que este trabalho sintetizado terá lacunas, mas achegas posteriores servirão para o aperfeiçoar”.
Felizmente chegaram essas “achegas” com o estudo e as descobertas já descritas.
A citação do texto primitivo que se segue, terá de ser ajustada às circunstâncias do tempo e dos acontecimentos.
“O Senhor Dr. Bernardo José Ferreira Reis assumiu a partir de 28 de Outubro de 2003 o cargo de Provedor da Santa Casa da Misericórdia. Ainda antes, como Vice-Provedor, orientou as obras de restauro e valorização da Igreja da Misericórdia e anexos, na impossibilidade, por motivos de saúde, do ainda Provedor, Senhor Engenheiro Alberto de Sousa Pereira do Lago Cruz, de saudosa memória, a quem prestamos a nossa homenagem de saudade e gratidão.
Que Nossa Senhora da Misericórdia proteja sob o Seu manto todos os que contribuíram para este acontecimento histórico do restauro da Sua igreja.
Esta prece envolve todos os Irmãos da Santa Casa da Misericórdia, com o seu Provedor, Senhor Eng.º Alberto de Sousa Pereira do Lago Cruz, o Vice Provedor, Senhor Dr. Bernardo José Ferreira Reis, que acompanharam connosco toda a evolução das obras, assim como os restantes Mesários que as apoiaram, todos os Técnicos e Trabalhadores das diversas especialidades”.

Conclusões
1. A proximidade da Sé, em alguns casos com espaços comuns, impôs limites, marcou fronteiras e regras sempre respeitadas pelos diversos Intervenientes: o antigo IPPAR e Direcção dos Monumentos do Norte, da parte do Estado; e do Cabido da Sé e Santa Casa da Misericórdia, entidades da Igreja, vizinhas com longa história e convivência exemplar. Basta referir a existência da Porta do Claustro da Misericórdia, utilizada através do Claustro de Santo Amaro da Sé, com escadas de acesso.
2. A reformulação ampliada do referido artigo vem confirmar algumas hipóteses levantadas então, e dar resposta a interrogações que estavam de pé.
3. Desde a iluminação a gás, à canalização das águas pluviais, através de caleiras de granito, à rede de águas das Sete Fontes e da cisterna existente, tudo ficou visível e palpável.
4. Pode-se concluir que valeu a pena o hercúleo esforço financeiro da Mesa Administrativa da Santa Casa da Misericórdia. Foi altamente compensado pelos resultados obtidos com a valorização do património histórico, artístico e religioso da Misericórdia.
5. A Igreja da Misericórdia, o Claustro, mais a Sacristia e os seus anexos, com a Casa da Irmandade e suas dependências são uma referência monumental no coração do Centro Histórico de Braga.
6. Por isso, a fase das obras agora concluída irá proporcionar aquilo a que poderemos vir a chamar “Núcleo museológico Santa Casa da Misericórdia de Braga”.

 

IGREJA DO HOSPITAL

Pré-História (Séc. XII) Da ermida do Espírito Santo e da Albergaria dos Cavaleiros Templários

1. A sua “Pré-História”

Para descobrir a origem da invocação de S. João Marcos, na Igreja do Hospital, como é mais conhecida, teremos de recuar vários séculos na investigação documental. A sua “pré-história”, envolta na poeira dos séculos, leva-nos aos primórdios da nacionalidade.
Existem três ruas em Braga, bem perto da Sé, cuja toponímia pode ajudar-nos a encontrar a primeira chave do segredo: são as ruas D. Afonso Henriques, ultimamente valorizada, a de D. Paio Mendes e a de D. Gualdim Pais. Pode o leitor atento perguntar: mas que relação poderá haver entre estes três personagens, do séc. XII, com um templo muito posterior?
Da história de Portugal sabemos quem era D. Afonso Henriques (1109 – 1185).
Também é conhecido a acção espiritual e patriótica de D. Paio Mendes (1118-1137), sucessor de S. Geraldo (1096-1108) e de D. Maurício Burdino (1109-1118), na reconstrução da Catedral destruída.
Mas quem era D. Gualdim Pais?
D. Gualdim Pais, filho de D. Paio Ramires e Dona Gontrode, pessoas da primeira nobreza daquele tempo, nasceu em 1118, em Amares, antigamente denominada Marecos. Foi armado Cavaleiro, em 1139, no Campo de Ourique, por D. Afonso Henriques, em cuja companhia se criara. Alistou-se, pouco depois, na Ordem Militar dos Templários e seguiu para a Palestina, onde acompanhou o Grão-Mestre da sua Ordem, em defesa dos Lugares Santos.
É interessante reparar que as referidas ruas D. Afonso Henriques e D. Paio Mendes, quase paralelas, ambas dão acesso à rua D. Gualdim Pais. Estes cidadãos ilustres tiveram certamente influência na génese histórica da ermida do Espírito Santo que existiu próximo da actual Igreja de S. Marcos.
A ermida do Espírito Santo terá sido o lugar de culto dos Cavaleiros do Templo, ou Templários.
A rua chamada, popularmente, “do Gualdim”, uma das ruas mais estreitas de Braga, pode orgulhar-se de lá ter existido uma das casas da Ordem dos Templários.
D. Paio Mendes, D. Afonso Henriques e D. Gualdim Pais, além de contemporâneos, estão profundamente ligados por laços de amizade ou de família, tal como as ruas com os seus nomes se abraçam, geograficamente, no coração do centro histórico de Braga e o elo de ligação é D. Gualdim. De facto, D. Afonso Henriques era amigo de infância de D. Gualdim Pais e este era sobrinho do Arcebispo D. Paio Mendes. Foi D. Gualdim quem recebeu do seu Tio a ermida do Espírito Santo e terreno para construir uma albergaria de acolhimento dos Templários. D. Afonso Henriques tendo armado Cavaleiro o seu amigo, sempre o protegeu como tal.
Pode-se concluir que a toponímia local, além de recordar três ilustres figuras, aponta-nos o caminho para encontrar a origem da primitiva ermida, depois dedicada a S. João Marcos. É que D. Gualdim Pais, segundo uma tradição, pelo menos oral, de oito séculos, terá depositado as relíquias deste Santo Mártir, trazidas da Terra Santa, quando regressou a Braga, depois de permanecer lá cinco anos, como Cruzado. Ao chegar a Portugal, foi feito Comendador e Mestre da Casa, que a Ordem tinha em Braga e recebeu também a doação das casas e fazendas de Sintra, da mão de seu amigo, o rei D. Afonso I. Em Julho de 1157, apareceu pela primeira vez como Mestre da Ordem dos Templários, em Portugal, no documento da doação régia de oito moinhos na ribeira de Alviela, declarando-se que metade do seu rendimento seria para o Coroa.
3. História – da Capela do Espírito Santo
à Igreja de S. João Marcos do Hospital
3.1. Séc. XV – XVI – Cónego Diogo Gonçalves
A construção do primitivo Hospital de S. Marcos foi iniciada pelo Cónego Diogo Gonçalves. Há notícia documentada que “o Arcebispo D. Fernando da Guerra, em seu testamento, com data de 2 de Setembro de 1467, deixou aos doentes do Hospital de S. Marcos outras dez Livras”.
3.2. Séc. XVI – XVII – D. Diogo de Sousa e Santa Casa da Misericórdia
Depois da extinção da Ordem dos Templários, em 1312, a ermida do Espírito Santo, onde se encontravam as relíquias de S. João Marcos, entrou em decadência. D. Diogo de Sousa, recém-chegado a Braga como Arcebispo (1505-1532), para realizar o seu plano reformador da Cidade, pensou reunir num só conjunto, todos os hospícios, lazaretos e albergues de acolhimento, que se encontravam dispersos pela Cidade e seus arredores. Em 1508, começou por mandar demolir a ermida do Espírito Santo, em ruínas. As sagradas Relíquias foram transferidas para a capela do Hospital, que corresponde ao espaço da actual Capela-mor da Igreja, e colocadas numa urna de mármore branco, no arco sólio do lado do Evangelho (lado esquerdo).
Em volta do Hospital primitivo, mandado fazer a expensas do Cónego Diogo Gonçalves, o Arcebispo adquiriu terrenos que o envolviam e mandou construir novas instalações. O número de doentes assistidos, de peregrinos e indigentes foi aumentando. Tornou-se também necessário ampliar a Capela que lhes servia de apoio.
O túmulo de S. João Marcos, agora muito digno e mais venerado, fez crescer na piedade do povo a devoção esmorecida pela ruína da sua Ermida. Espontaneamente, o Hospital começa a ser conhecido por “Hospital de S. Marcos”, recebendo o nome do Patrono da sua Igreja. O seu culto começa a desenvolver-se, cada vez mais, entre os doentes, familiares e pessoas ligadas à saúde. A fama da devoção e dos milagres chega ao Brasil, levada certamente por emigrantes portugueses. Publicaram-se alguns livros e devocionários dedicados a S. João Marcos, Mártir, discípulo de S. Pedro.
O Arcebispo D. Diogo de Sousa, como Senhor de Braga, entregou, em 1559, os cuidados de saúde e assistência à Câmara Municipal. Poucos anos depois, o Beato Frei Bartolomeu dos Mártires, seu sucessor, por o ter encontrado com má administração, entregou esses serviços à Misericórdia de Braga por lhe parecer que uma Irmandade estaria mais vocacionada para exercer as Obras de Misericórdia.
3.3. Séc. XVII – Santa Casa da Misericórdia e Cónego João de Meira da Silva Carrilho
Entre muitas outras ajudas, surgiu a do Cónego João de Meira da Silva Carrilho (? - 1688) que instituiu um coro de 5 capelães, com obrigação de rezar o ofício divino e os outros actos litúrgicos e um Capelão para dar assistência espiritual a todos quantos procuravam os serviços do Hospital.
Este grande benfeitor, com a sua fortuna e a sua influência na sociedade civil e na esfera eclesiástica, contribuiu para a ampliação deste local e a sua dignificação. O seu nome e a sua pessoa ficaram de tal modo ligados à sua querida Igreja que a escolheu para sepultura, deixando em testamento a quantia necessária para a côngrua sustentação dos sacerdotes ligados ao culto da Igreja e à assistência espiritual dos enfermos e peregrinos.
Quando se restaurou a capela-mor, adaptando-a às exigências da liturgia actual, em novos planos do pavimento, foi encontrado um sarcófago de granito de pequenas dimensões, com as suas ossadas. Estava tapado com algumas pequenas lages de granito e, por cima destas, uma lápide fúnebre de mármore, com a inscrição que apresentamos com a redacção actual: “SEPULTURA DE D. JOÃO DE MEIRA CARRILHO, CÓNEGO QUE FOI DA SANTA SÉ DESTA CIDADE DE BRAGA E COMISSÁRIO DO SANTO OFÍCIO E DA BULA DA CRUZADA FALECEU EM 23 DE JANEIRO DE 1688. NESTE DIA TEM OFICIO TODOS OS ANOS.”
Esta lápide foi reposta no lugar onde foi encontrada, subindo de cota, para ficar ao nível do soalho, como era costume nos enterramentos nas igrejas.
3.4. Séc. XVII – XVIII – Santa Casa da Misericórdia e D. Rodrigo de Moura Telles
D. Rodrigo de Moura Telles (1704 – 1728)
Este Arcebispo de Braga foi sem dúvida o maior impulsionador do culto de S. João Marcos e grande benfeitor da Santa Casa da Misericórdia de Braga. Foi Provedor nos anos 1709 a 1712. A ele se deve obras realizadas no Hospital e na Igreja de S. Marcos, sob a orientação do engenheiro Villalobos, de Viana do Castelo, que fez uma planta geral para todo o edifício: igreja, claustro e enfermarias.
Tendo falecido o Arcebispo em 1728, e como as obras demoraram muito, a Mesa resolveu pedir um novo projecto para a Igreja a um pintor italiano que esteve em Braga entre 1733 e 1735, o florentino Carlos António Leone. Estas obras não devem ter sido feitas com boa qualidade, porque 50 anos mais tarde a Igreja estava ameaçada de ruína iminente.
Ficou para a história da arte religiosa o grande empreendimento de D. Rodrigo de Moura Telles, ao ter importado de Roma, um artístico e valioso mausoléu para receber as relíquias de S. João Marcos que se encontravam na urna, sob o arco sólio, do lado do Evangelho, mandado construir por D. Diogo de Sousa. Verifica-se que, respeitando a memória do seu antecessor, todos os elementos do túmulo foram respeitados para a posteridade.
Dada a alta qualidade do “monumento”, vindo de Roma, e a necessidade do seu restauro, deixamos aqui os elementos recolhidos, em acta, para conhecimento dos interessados.
Abertura da urna com as Relíquias de S. João Marcos
Sendo necessário proceder à limpeza e valorização do mausoléu onde se encontra a urna com as Relíquias de S. João Marcos, mandada colocar por D. Rodrigo de Moura Telles, em 1718, foi necessário proceder à desmontagem da estrutura de mármore. Este trabalho foi executado por técnicos especializados, na presença do Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Braga, Dr. Bernardo Reis, do Capelão da Santa Casa da Misericórdia, Cónego António Macedo e do Fiscal da obra, Francisco Xavier Macedo.
Dentro da arca estava depositada uma urna de madeira de sândalo, pintada de cor vermelha. Estava fechada com três fechaduras: a do centro, com espelho metálico, em que estão gravadas, a punção, as armas do Arcebispo D. Rodrigo; as fechaduras laterais, com pequeno espelho liso, em forma de coração. A urna foi conduzida para a sacristia de apoio, onde foi aberta pelos mesmos profissionais, na presença das pessoas acima citadas. O interior estava forrado de pano de damasco, de cor vermelha, em perfeito estado de conservação, debruado por galão dourado. Duas abas de forro igual, ligadas às paredes laterais da urna estavam soltas, no centro, sobre um véu de seda natural, também vermelho, que cobria a totalidade das ossadas. Junto das paredes das fechaduras, de pé, estava encostada uma placa de cobre, escrita em latim, com as dimensões de 0,21 x 0,15, cuja tradução ficará no arquivo da Santa Casa da Misericórdia, em pasta própria.
A qualidade dos tecidos e o seu bom estado de conservação, bem como a pregagem dos espelhos das fechaduras laterais, leva-nos a perguntar se a urna não terá sido aberta e substituídos os tecidos, durante as obras realizadas entre 1905 e 1908. Esperamos a confirmação, na investigação dos arquivos desta Irmandade.
Braga, 6 de Fevereiro de 2007

Inscrição na placa de bronze, colocada dentro da urna.
RELÍQUIAS INSIGNES DE SÃO JOÃO MARCOS, DISCÍPULO E MÁRTIR DE CRISTO SENHOR, AS QUAIS, PASSADOS MUITOS SÉCULOS, FORAM DEPOSITADAS E GUARDADAS NUM TÚMULO DE MÁRMORE, POR ORDEM DO ILUSTRÍSSIMO E REVERENDÍSSIMO SENHOR D. RODRIGO DE MOURA TELLES, ARCEBISPO E SENHOR DE BRAGA E PRIMAZ DAS HESPANHAS, FORAM TRANSLADADAS COM POMPA E VENERAÇÃO SOLENES PELOS IRMÃOS DA SANTA MISERICÓRDIA DA CAPELA INTERIOR DO HOSPITAL PARA ESTE TEMPLO E AQUI FORAM COLOCADAS NO ALTAR-MOR DA IGREJA, SENDO SUMO PONTÍFICE CLEMENTE XI E REI DE PORTUGAL JOÃO V, NO DIA 26 DE ABRIL, NO ANO 1718.

ETAPAS DA SUA HISTÓRIA
1508 – D. Diogo de Sousa manda demolir a capela onde se veneravam as relíquias de S. João Marcos, por esta estar abandonada e em ruínas. As relíquias são trasladadas para a Capela do Espírito Santo e colocadas num arco aberto na parede do lado do Evangelho (lado esquerdo).
1718 – D. Rodrigo de Moura Telles, manda trasladar as relíquias para um túmulo de mármore com incrustações de várias cores, feito em Itália. Este é colocado num arco da parede no lado da Epistola (lado direito).
1787 – Planta inicial de Carlos Amarante para a construção do templo actual.
1799 – Colocação do retábulo da capela-mor, cujo desenho é atribuído a Carlos Amarante.
1905-1908 – Depois de 3 anos de grandes obras, a Igreja é benzida solenemente nos princípios do ano.
2000-2007 – Obras de beneficiação e restauro que decorreram, entre Abril de 2000 e 15 de Março de 2007.
• Revisão total de estruturas do telhado e tecto. Substituição das madeiras afectadas e tratamento anti-xilófago. No tecto, a recuperação foi da ordem dos 15%.
• Reposição dos estuques danificados ou apodrecidos, no zimbório e tectos da nave e do coro.
• Pintura do zimbório sobre os estuques restaurados. Pintura dos tectos e paredes.
• Levantamento das madeiras do soalho e sua substituição por madeiras novas e tratadas, na capela-mor, sacristia e coro.
• Limpeza de todas as cantarias interiores e descoberta do pavimento primitivo, em lages de granito, na entrada da sacristia.
• Decapagem das diversas camadas de tinta da “grade da comunhão” e seu enceramento.
• Tratamento e restauro de todos os retábulos e reposição dos altares laterais na cota do pavimento.
• Reorganização do espaço da capela-mor, com novos planos, segundo as exigências da liturgia.
• Descoberta da lápide de mármore da sepultura do cónego Carrilho, grande benfeitor da igreja. Reposição à vista no pavimento actual.
• Valorização do túmulo de mármore, com as relíquias de S. João Marcos, mandado executar por D. Rodrigo de Moura Telles, em Itália.
• Limpeza e restauro do túmulo onde estiveram as relíquias de S. João Marcos, no tempo de D. Diogo de Sousa.
• Exposição da tampa de madeira de castanho, com pintura de grande qualidade e em bom estado de conservação.
• Pintura dos brasões da Misericórdia e dos Arcebispos mais ligados à História da Igreja e do Hospital de S. Marcos, sobre o adorno em granito das portas interiores: D. Diogo de Sousa, Beato Bartolomeu dos Mártires, D. Rodrigo de Moura Telles. Pintura dos brasões do Papa João Paulo II e do Arcebispo D. Jorge Ferreira da Costa Ortiga, sobre as portas da capela-mor.
• Douramento da Cruz esculpida em granito, possível vestígio da capela primitiva entregue aos Templários por D. Paio Mendes.
• Restauro de todas as imagens veneradas nesta Igreja. Foram levadas à sua pintura original as de: Nossa Senhora do Rosário, S. João Marcos, S, João de Deus, S. Rodrigo e Nossa Senhora das Dores. As restantes foram tratadas e limpas: Sagrado Coração de Jesus, S. Sebastião, Santíssima Trindade, Menino Jesus de Praga, Beato Bartolomeu dos Mártires e S. Bento.
• Restauro e colocação do Crucifixo que presidiu há séculos na Igreja da Misericórdia e depois na capela da Morgue do Hospital de S. Marcos.
• Consolidação e restauro da tribuna e das paredes laterais do suporte da mesma.
• Restauro do órgão de tubos e da sua caixa de madeira com talha.
• Restauro dos púlpitos e das sanefas e descoberta da pintura primitiva a ouro fino burnido.
• Altar da celebração desenhado e executado, a condizer com o retábulo-mor.
• Ambão adaptado, na estrutura e na pintura, proveniente do coro da Igreja da Misericórdia.
• Restauro e pintura de todas as portas da igreja e sacristias.
• Restauro das paredes e tecto da sacristia.
• Substituição do pavimento apodrecido da sacristia por madeiras tratadas e com acesso à caixa de ar e ventilação por grelhas.
• Restauro do arcaz e dos armários de parede da sacristia.
• Restauro das paredes, tectos e pavimentos dos acessos da sacristia, bem como dos armários ai existentes.
• Criação de espaço para preparação de arranjos florais e guarda de produtos de limpeza.
• Restauro do retábulo e altar do arco da sacristia.
• Aplicação de uma talha existente, com dossel, sobre o crucifixo do arcaz, que era ornamento do arco da urna de S. João Marcos. Este crucifixo é pintado numa tábua que esteve num pequeno nicho da entrada de uma casa que entrou em ruínas. Quando o encontrou totalmente abandonado, uma vizinha recolheu esta cruz em sua casa. Depois, por conselho do seu confessor, entregou-o à Santa Casa da Misericórdia de Braga. Por ter sido muito mal tratado, no nicho em ruínas, chamaram-lhe “O Senhor dos Desprezos”.
• Valorização da fonte “Lavabo”, possivelmente desenhada por André Soares.
• Restauro de todo o espaço das escadas de acesso ao Hospital pela porta da sacristia, deixando à vista diversas fases e épocas de intervenções.
• Colocação a descoberto de peças relacionadas com o abastecimento de água corrente ao Hospital, cuja instalação, em 1723, se ficou a dever a D. Rodrigo de Moura Telles.
• Deixaram-se à vista pedras pintadas de origem desconhecida que estavam nos rebocos junto dos altares laterais e na caixa dos janelões.
• Revisão total e substituição das redes de electricidade e de água.
• Montagem de alarme de anti-intrusão e de detectores de incêndio.
• Aproveitamento do vão da porta para o nicho de S. Bento, tendo ficado tapada uma pintura mural com imitação de escariol, de fraca qualidade.
• Colocação, em todas as janelas, de vidros laminados, seccionados e com ventilação.
• Colocação de rampa provisória, na entrada principal, para pessoas com dificuldades de acesso à Igreja.
• Placa de inauguração: “SOB A PRESIDÊNCIA DO SENHOR D. JORGE DA COSTA ORTIGA, ARCEBISPO PRIMAZ, TIVERAM LUGAR, NO DIA 25 DE MARÇO DE 2007, AS CERIMÓNIAS RELIGIOSAS EM COMEMORAÇÃO DA CONCLUSÃO DAS OBRAS DE RECUPERAÇÃO E RESTAURO DA IGREJA DE S. MARCOS. DIGNARAM-SE ASSISTIR AO ACTO O SENHOR D. EURICO DIAS NOGUEIRA, ARCEBISPO EMERITO, O SENHOR ENGº FRANCISCO MESQUITA MACHADO, PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL, O SENHOR DR. MANUEL DE LEMOS, PRESIDENTE DO SECRETARIADO NACIONAL DA UNIÃO DAS MISERICÓRDIAS, OS CORPOS SOCIAIS, AS IRMÃS E OS IRMÃO DA IRMANDADE DA SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DE BRADA. 25.03.2007”
Recortes de alguns guias turísticos
“A frontaria do edifício é do séc. XVIII e é a restauração da velha capela de S. Marcos, fundada nos princípios do séc. XV. As oito imagens que se podem ver no cimo e a todo o comprimento do edifício representam mártires e apóstolos em tamanho natural. Deve-se, como tantas outras obras, ao arquitecto bracarense Carlos Amarante.” (in Braga Portugal, folheto turístico, Câmara Municipal de Braga, sem data)
“Reedificada em 1787, é uma das obras iniciais de Carlos Amarante. Numa fachada horizontal (a do Hospital) ergue-se a igreja sob duas esguias torres, numa fachada curvilínea, ainda de feição barroca. O interior, totalmente neoclássico, tem uma harmonia admirável.” (in Braga, Portugal, Guia Turístico, Edições Espaço)
“Ao fundo a rua abre-se, à esquerda, o amplo Largo de Carlos Amarante, outrora denominado «dos Remédios», nome que se diz dever-se às curas milagrosas que ali se efectuavam por intercessão de S. João Marcos, discípulo de S. Pedro, cujo suposto corpo esteve muitos anos sepultado na capela de S. Marcos Evangelista e foi em 1718 trasladado solenemente, por ordem do arcebispo D. Rodrigo de Moura Teles, para a capela-mor da Igreja do Hospital.” (in Guia de Braga, Arte e Turismo, Câmara Municipal de Braga, 1959)
“Ao centro do harmonioso conjunto hospitalar integra-se, com justeza, a frontaria da Igreja de S. Marcos, de reduzidas proporções, mas muito equilibrada e de interior cativante.
O pórtico, flanqueado por duas colunas altas, é sobrepujado por um balcão de balaústres. Transpondo o umbral, reconhece-se o esmero do desenho e da execução do pequeno templo. A nave, breve e alta, é coberta por uma abóbada de pedra, levemente abatida. Sobre o coro uma pequena abóbada hemisférica.
Ao centro, uma bela rotunda basilical, de cobertura alta e cupular, muito formosa, de gomos, apoiada numa varanda corrida, com quatro aberturas iluminantes.
Capela-mor, interessante, da mesma altura da nave.
A feição do pequeno templo é nitidamente joanina.” (in Guia de Portugal, IV Entre Douro e Minho, II Minho, Fundação Gulbenkian, 1986)
 

CAPELA DE S. BENTO

Situada na Rua do Hospital, junto à entrada para o Centro de Recuperação e Ortopedia do Hospital. 

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